sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

AMOR

São Paulo, 14 de junho de 2007

Caríssimo M.(Hoje, preciso tentar falar de amor...)

Nada teria acontecido assim como é, como foi se você não tivesse me atritando o suficiente para que eu saísse da redoma. Nosso viver é a realização da fábula dos peixes que nadavam tranquilos num tanque, num aquário, numa mentira, até que fosse colocado ali, um tubarão. Nadar para não ser devorada, saber dar cambalhotas e fazer os malabarismos para não perecer. Conseguir não se transformar apenas em alimento de um predador guloso e irracional. Fazer a vida valer a pena, frase até tosca de tão desgastada pelo abuso foi o que o tubarão, desafio supremo, que colocaram em meu tanquinho, antes tão agradável e castrador, fez em minha vida. Ontem, ainda foi dia de namorados e de santo casamenteiro, que também conversava com peixes... Ontem, também foi dia para se pensar e se viver amores. Amor em nossa sociedade de consumo se confunde com mercadorias e isso é muita crueldade para quem ainda só pensa em "rosas" que explodem em canteiros de jardins cultivados por fiéis amantes das nuances e das sutilezas...Se eu precisasse abrir um pacote num dia de enamorados ele conteria apenas versos, pétalas e pedrinhas. Sem dúvida, as conchas e alguns fiapos de sublimes lembranças. O coração saltitante indicaria que dentro da caixa há promessas e assim o dia é especial. Nada mais lindo do que um amor que desacomoda a cada instante. O equilíbrio, a 'normalidade' (ó palavrão) são venenos para os amantes. Amor exige criatividade para não ser tragado pelo cotidiano interminável das estúpidas obrigações. Amor exige que se acorde de manhã e nem se queira olhar para o tempo que tiquetaqueia minutos sem fim. Relógios, que imbecilidade para os amantes!. Relógios indicam mesmo o quê hoje, neste tempo de despropósitos?!! Se um dia eu recebesse um de presente... Sei que saberia que nada mais tinha a fazer, pois o tempo se esvaiu no suor que resultou nas cédulas que o compraram. Desejaria esse suor para mim... Perfume amoroso que aliviaria a condição efêmera de minha humanidade. Se um dia, você quiser me dar 'aquela bolsa' que está estampada no papel que forra o piso de meu quarto eu sentirei pena de nosso amor, tão massacrado pelas induções, que escancaram tolices pelo mundo triste de abraços e faminto de olhares cúmplices... Todos os dias são enamorados; todos instantes contêm surpresas e alegrias. Assim, dia-a-dia abro janelas para que entrem as ventanias desse amor desafiante. Muitas vezes houve desajeito nas manifestações... Tufões quase me soterraram. Prefiro, porém as cicatrizes destes eventos às dores de articulações em desuso. A sua carta, querido M., talvez não seja carta para ser lida em todos os teatros do mundo, lugar das máscaras. Mas é uma carta de amor que se desnuda para usufruir a pureza que ainda possa ser recuperada pela revelação dos sentimentos incontaminados pelo mimetismo de um mundo esquisito.Não fique apreensivo, sei usar as personas de modo igual e também de maneira original. Sabe, aquele cabide de casacos e de écharpes que tenho em meu quarto? É de lá que tiro as fantasias todas que uso a cada instante dos dias. Só sei que elas, ali estão e estarão inertes sem minha decisão. Quem decide sou eu... Como escolho? Qual o critério que adoto? Você ainda não descobriu? A intuição, uma cócega que sinto e que me faz rir ocasionalmente. Houve um dia em que saí tão produzida que passei por mais de vinte amigos...E eles não me reconheceram. Felizmente, quando retirei os adereços eu ainda estava lá. Feliz e matreira: inteira! É verdade, caríssimo, o perigo de usar muitos disfarces é que um dia podemos não mais acordar da brincadeira e continuarmos para sempre no palco das vaidades. Penso que você entendeu meu recado amoroso: ele é simples.Simples e direto: Há amor quando os supérfluos interferirem o mínimo possível em nossos sentimentos. Conseguir um espaço onde "amantes felizes 'façam' o mesmo pão*" é o sonho da minha vida... Seremos capazes de realizar uma utopia assim tão desatualizada??? Vamos sonhar, pois o sonho acontece em linhas, em versos. Na poesia dos enamorados. Dois amantes serão capazes de juntos viver uma poesia? Abraços, Anthonia*Verso de Pablo Neruda

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